Tradução por Henrique Vicente de Smartphone, Dumb Government por Jeffrey Tucker

A nova unidade da Motorola recém adquirida pelo Google tinha grandes ambições de servir aos consumidores e continuar nos deslumbrando com coisas ainda mais espetaculares que engrandecem as nossas vidas. Afinal de contas, o smartphone (celular inteligente) é facilmente a melhor inovação para os consumidores de nosso tempo, e talvez de toda a história. Ele realiza proezas surpreendentes em um minúsculo pacote e representa uma maior conquista da mente humana do que qualquer coisa realizada pelo governo, desde sempre.

O smartphone tem um nome errado de vários formas. Afinal, dependendo do aplicativo ou extensão, ele provém mapas e posicionamento global, confere a sua pressão sanguínea, torna-se um instrumento musical, permite você comprar e vender ações do meio do nada, aproveitar chats por vídeo com pessoas de todo lugar do mundo, reunir amigos e redes, e manter contato e enviar mensagens para qualquer um.

Ele me permite fazer meu próprio filme na hora e difundí-lo para bilhões em uma questão de minutos. Eu posso gravar um som. Eu posso imediatamente fazer qualquer coisa acontecendo em minha frente virar uma transmissão ao vivo para o mundo inteiro, e fazer isto sem pagar tarifas caras. Eu posso conduzir uma entrevista e arquivá-la no meu próprio canal, o qual eu posso criar em poucos segundos. Ou é claro, eu posso jogar milhares de jogos.

É uma calculadora, um verificador de email, um alerta metereológico, uma câmera, um navegador Web, um leitor de notícias, um som estéreo completo, um leitor de livro, um tradutor, um scanner, e um tudo em miniatura dentro de uma coisa do tamanho de um baralho de cartas que é metade da espessura. As inovações entram neste minúsculo miráculo todo o dia, toda a hora, até. E está apenas começando: A economia de aplicativos promete inovações surpreendentes a vir.

Eu me lembro de várias vezes sugerir a pessoas trocarem os seus telefones antigos (ótimas engenhocas eles mesmos, dado que só o mais rico dos ricos poderiam se dar ao luxo de ter tal aparelho nos anos 1980) com um smartphone. Elas desconfiam da utilidade e recusam e finalmente cedem, e apenas aí elas notam o que elas andavam perdendo. É uma revelação, um sonho de infância que vira realidade.

Então o que o Google planeja com a sua aquisição da Motorola? Servir ainda mais maravilhas a um público pronto para um público a espera de ser maravilhado mais uma vez? Ainda não. O seu primeiro passo foi abrir uma ação maciça contra o iPhone. E por quê? Você acertou: violação de patente. O Google alega que a Apple roubou algumas tecnologias da Motorola.

A Apple tem sistematicamente se negado a negociar qualquer acordo de licenciamento razoável, o que é exatamente o mesmo comportamento que a Samsung enfrentou antes. E o Google não é estúpido. O mundo inteiro estava assistindo aquela ação judicial que a Apple moveu contra a Samsung, e viu como um júri cansado, confuso, e sem conhecimento tecnológico, em uma audiência em um tribunal a 10 milhas da sede da Apple, condenou a Samsung em mais de um bilhão de dólares.

O Google não vai simplesmente aceitar isso. Ele decidiu agir primeiro ao invés de arriscar esse tipo de ataque agressivo. Ele está pedindo à Comissão Internacional de Comércio para começar a bloquear todas as importações de iPhones, iPads, e iPod Touch. Louco, não? O Google nos odeia tanto que ele buscaria tal resultado? Depois de todos esses anos de servir desesperadamente o mundo dos navegantes da Web, nos dando maravilhosas ferramentas de graça e revolucionando o mundo da publicidade, havia ele decidido agora espalhar miséria para o público americano?

Não, é tudo para se defender contra ataques agressivos. O que o júri fez no caso da Apple x Samsung desencadeou uma fatal corrida corrida armamentista letal. Uma indústria que se tornou emocionante e gigantesca, e que trouxe progresso sem precedente, está agora entrando em um período perigoso nos quais os cães realmente se comem, no qual a vitória de uma empresa é a perda de outra, e onde o bem-estar do consumidor tem de ser colocado em espera para a batalha dos titãs.

O problema se resume a uma palavra: patente. Nos anos 80, patentes foram ampliadas para cobrir programas. Este foi o início do que se tornaria um catastrófico emaranhado regulamentar que iria seduzir todos os produtores e onde os advogados iriam sair ganhando como bandidos independente de quem ganhasse.

Quando as patentes apareceram pela primeira vez na história, elas eram monopólios garantidos pela coroa em troca de bajulação política. Esta era a era do mercantilismo, e gradualmente chegou à era do capitalismo, em que barreiras de comércio, impostos, e regulamentos caíram. O slogan era laissez-faire, ou, deixe o comércio sozinho para se auto-gerenciar por conta própria. O governo não pode melhorar os resultados dos processos de mercado.

As patentes hoje são resquícios de uma era pré-capitalista. Elas não eram tão controversa antes da era digital, porque o progresso econômico era relativamente devagar e as patentes expiravam e porque as patentes não se aplicavam à maioria dos importantes bens de consumo que usamos todo dia. Mas o problema com elas sempre foi o mesmo: Por conceder o direito de produção exclusiva a uma firma, patentes atacam o processo competitivo tanto quanto sua própria raíz.

O processo competitivo acontece ao longo de várias fases, que constantemente se sobrepõe. Tem a inovação (sempre uma extensão do que veio antes). Então com a inovação pode vim um período de rentabilidade. Esta rentabilidade atraí outros produtores à indústria que inovam mais e tentam melhorar o produto ou serviço. O produtor inicial tem então que se esforçar para manter a sua fatia de mercado, e assim o faz através da inovação e corte de preços.

Note que todo o sistema é baseado na habilidade de se aprender com os outros. Boas empresas emulam os sucessos dos outros, evitam os seus erros, e melhoram o que já existe marginalmente. Esta é a essência do progresso econômico. Isso é como a competição resulta na maior benção concebível para os consumidores.

Como Steve Jobs disse em 1994, "Nós nunca tivemos vergonha em roubar ótimas ideias." Isso também vale para cada grande pintor, poeta, ou empreendedor. Eles constroem no que veio antes. Eu apenas lamento o seu uso da palavra "roubar". Quando você copia uma idéia, não há um ladrão e uma vítima, mas duas idéias. Este processo de cópia-de-idéias se extende ao infinito.

Quem no mundo dos negócios gosta da idéia de competição? As start-ups gostam dela. Os inovadores gostam dela. Jovens empresas buscando mudar o mundo gostam delas. Competição dá a eles uma oportunidade de fazer a diferença e construir coisas maravilhosas. Mas empresas velhas não gostam dela. Uma vez que chegam ao topo, elas preferem descansar sobre os seus louros conquistados.

Em um mercado, eles não podem descansar. Mas com patentes, eles podem processar. Eles podem usar as ferramentas do governo para arrasar seus competidores. Se funcionar, eles podem receber o que vale como um resgate. Se valer de uma disputa de patente contra um competidor não é diferente de conseguir erguer uma tarifa contra os importados, fazer sua companhia de seguros obter uma infusão de recursos do Departamento do Tesouro, ou de um sindicato impedir trabalhadores mais em conta de entrarem no mercado.

A história real do ataque feito pela Apple à Samsung é contada nos números. A Apple vem dramaticamente perdendo a sua participação no mercado para a competição. Isto não é surpresa: O primeiro do mercado experimenta um período de rentabilidade acima da média de retorno. E então outros emulam e melhoram na margem. Preços caem, serviços melhoram, e coisas maravilhosas acontecem com todos com exceção do antes líder.

As patentes são uma ocasião de pecado. Elas tentam os negócios a pedirem ao governo esmagar a sua concorrência, ao invés de irem buscar estratégias mais inovadoras para atrair consumidores. Eis o porquê das indústrias sem patentes serem tão vibrantes. Patentes não se aplicam ao mundo da moda, receitas de todos os seus pratos favoritos, às jogadas nos esportes, e para a maioria das coisas que usamos e amamos.

Eu posso mostrar a minha jaqueta azul-marinho da Wal-Mart e uma da Burberrys e, a uma distância de três pés, você não pode notar muita diferença. Mas ambas conseguem co-existir lado-a-lado, e todos ganham. Mas o júri no caso da Apple x Samsung olhou para os dois telefones e disse: oh eles são realmente bem similares, então um tem que ir!

As patentes estabeleceram monopólios protegidos pelo governo. Ironicamente, outras divisões do governo afirmam intervir nos mercados para rebentar monopólios e dividir a participação de mercado. De qualquer forma, o governo está fazendo planejamento central escolhendo vencedores e perdedores no mercado ao invés de deixar o processo competitivo do mercado acontecer.

O que aconteceu com a Apple realmente equivale a um resgate feito pelo governo, não diferente daquele ganho pela AGI em 2008. Mas nós o reconhecemos como tal? Provavelmente não, porque toda a extorsão está regida na linguagem de uma lei que poucos entendem ou questionam.